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caderno amarelo

08
Jun24

Deixem-nos escrever histórias tristes

Participei num concurso de escrita, em que aquando da entrega dos prémios aos vencedores, o júri fez questão de pedir aos participantes mais luz e mais esperança, dizendo que nos últimos anos, os textos que recebem a concurso, são na sua maioria tristes e muito dark. Tenho pensado muito sobre isso nos últimos dias porque reconheço que, também o que eu escrevi para o concurso foi uma história triste de final infeliz. E pergunto-me se sou capaz de escrever uma história mais leve e feliz. Tenho sérias dúvidas que neste momento o consiga fazer. Considero-me uma pessoa alegre e feliz (com lágrimas), mas são as amarguras que me têm levado a escrever. Tenho tido a minha justa quantidade delas. Não se trata de queixume, trata-se de mágoa. E quantos livros não se escreveram sobre mágoas? Mágoas partilhadas por gerações inteiras. E a minha também tem as suas. Mas pedem-nos para termos mais esperança e sermos mais alegres. E não o somos? Pelo menos, parecemos. Temos a liberdade para o ser. Mas dentro da alegria, habita uma tristeza fechada com três trancas. E ela tem de ir saindo de alguma maneira, senão, enlouquecemos. E a arte sempre foi uma bela forma de expurgar a tristeza.
Acho que o que a minha geração tem vindo a sentir, é que nascemos no bom (ou no potencialmente bom) e crescemos a ir para o pior. Que estamos a ir contra muros fortemente edificados a cada dia que passa e a cada mentira que se espalha levianamente. O mundo estava a pintar-se a cores, e agora há cada vez mais vozes a querer pintá-lo de cinzento, outra vez. Também há cada vez mais individualismo, ou pelo menos, é isso que eu sinto, e a fixação pelo sucesso está a a tirar a piada à experiência de se andar por aqui. E o que as redes socias nos trouxeram de bom, também nos trouxeram de mau. Às vezes parece que oiço os gritos dentro da minha cabeça, "tens de ser tudo!", "ou pelo menos excelente em alguma coisa!", "mas idealmente em tudo!".... Por isso é que eu acho que a crise de meia idade da minha geração vai passar por abandonar as redes sociais. Chega a ser poético. Os primeiros a entrar e os primeiros a sair. Mas isto é tema para um outro desabafo.
Por aqui, está tudo bem. Os dias são coloridos, quando são passados longe de toda essa gritaria. E a vida é boa, quando é vivida devagar. E prometo escrever as minhas histórias felizes, mas primeiro, deixem-me tirar as tristes de dentro de mim.

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