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caderno amarelo

30
Nov25

A Impostora, de R. F. Kuang

Yellowface, no título original, é um livro difícil de pousar. É tragicómico e tem suspense, o que o torna num bom entretenimento e facilmente viciante. 

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A protagonista June Hayward é escritora, mas nunca conseguiu fazer a sua carreira singrar, ao contrário da amiga de faculdade e também escritora, Athena Liu (Athena é de ascendência chinesa, o detalhe mais importante para o resto da história), celebrada pela crítica e com sucesso comercial. Desde cedo se percebe a inveja que June tem de Athena, não só do sucesso da sua escrita, mas também da sua personalidade mais vistosa. Athena é daquelas pessoas a quem tudo parece sair bem, e June é neurótica e procrastinadora. Uma certa noite, Athena convida June a sua casa para comerem panquecas, enquanto lhe fala do livro que está a escrever e ainda não mostrou a ninguém. Mas um acidente acontece, e naquela casa há um manuscrito quase concluído mas desconhecido do mundo. E é a partir daqui que tudo começa. 
Este livro é uma crítica ao mercado editorial, à apropriação cultural, à cultura do cancelamento e outras questões dos nossos tempos. A escrita é super fluída, o que o torna numa leitura rápida. Passamos tanto tempo com e dentro da cabeça da personagem principal, que por momentos, se torna difícil colocá-la do lado errado ou certo da história. É também, a meu ver, uma boa reflexão sobre o declínio em que se entra, quando alguém quer ser maior do que ele próprio. Uma questão que eu considero que teria acrescentado mais ao livro, se tivesse sido explorada.
Já o li há uns tempos, e de vez em quando ainda penso nele. Penso que é sinal que foi uma boa leitura.  

22
Nov25

Afin que rien ne change, de Renaud Cerqueux

Uma crítica social cheia de humor negro e apontamentos satíricos. Desenrola-se quase sempre no mesmo espaço, e há características da narrativa que me fizeram lembrar o 1984 de George Orwell, nomeadamente a crítica ao poder instalado, que aqui é do capitalismo e das elites económicas, e o tratamento do indivíduo como uma peça descartável.

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O protagonista do livro, Emmanuel Wynne, herdeiro de uma família rica, é raptado inesperadamente, mas sem pedido de resgate. Tudo aquilo que o sequestrador pretende é doutriná-lo, e torturá-lo através de tarefas repetitivas. O objetivo é demonstrar-lhe que faz parte de um sistema de poder que explora os comuns trabalhadores. Tudo se desenrola no domínio do absurdo. Emmanuel é, por exemplo, obrigado a construir torres de açúcar, como parte desta experiência social promovida pelo sequestrador. Por ser uma história que se passa quase sempre no mesmo espaço, e tendo apenas três personagens, acabou por se tornar para mim uma leitura claustrofóbica. Talvez tenha sido mesmo essa a intenção do autor. O romance tem também um caráter humorístico e menciona muitos temas atuais, questionando o sentido do trabalho numa sociedade obcecada com o lucro. O título é inspirado na frase do escritor italiano Giuseppe Tomaso de Lampedusa: "É preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma."
Aprendi também com este livro uma nova expressão: "On n'a pas de pétrole, mais on a des idées." Fui investigar a caricata origem desta frase que se disseminou e é muito usada pelos franceses. Trata-se um slogan publicitário dos anos 70 que pretendia incentivar os franceses a encontrarem soluções alternativas para economia de energia, após a crise petrolífera de 1973. 
Está longe de ser umas da minhas leituras favoritas do ano, mas por não ser extenso nem ter uma escrita complexa, valeu a pena pegar neste livro que trouxe há um par de anos de Paris, para conseguir finalmente ler em francês.  

13
Nov25

Sob o peso das rodas, de Hermann Hesse

Publicado em 1906, este romance é sobre o peso das expectativas e da pressão social sobre as crianças que entram no sistema educativo. Por outras palavras, o peso que o "método" tem sobre a imaginação e a criatividade.

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O nosso herói, ou mártir, chama-se Hans e é um rapaz extremamente inteligente, que apesar de focado e dedicado aos estudos, é também um amante da pesca, do campo, e claro, como qualquer criança, da brincadeira. Ele é a esperança da sua pequena cidade, que nunca viu ninguém sair-se tão bem na escola e todos lhe almejam um grande futuro. Cedendo à pressão dos adultos à sua volta, ele prepara-se exaustivamente para a prova de acesso ao seminário teológico. E o estudo que começa por ser feito com gosto, depressa se torna num sofrimento, quando mesmo depois de sair-se bem na prova e garantir um lugar no seminário, Hans tem de passar o verão a estudar, para se preparar para competir com os alunos brilhantes que vai encontrar no seminário, assim o aconselham os adultos. É aqui que Hans percebe que a sua juventude e liberdade lhe começam a escapar. 
Quando Hans entra no seminário, tem alguma dificuldade a adaptar-se, principalmente às diferentes personalidades dos seus colegas de camarata. Mas é com o mais rebelde, Hermann Heilner, que acaba por forjar uma amizade. Heilner é a criança poeta, que não se conforma nem obedece às estritas regras do seminário, e desperta em Hans novos sentimentos e uma nova forma de ver a vida. E é através desta ligação que vemos o contraste entre o mundo colorido de Heilner e o mundo cinzento de Hans, em que o autor procura expôr a dicotomia individualidade vs. repressão. Heilner acaba por ser expulso do seminário, o que tem um grande efeito em Hans, e o resto não revelo, mas é uma história triste. 
Sou atraída por este tipo de histórias, sobre infâncias trágicas e solitárias. Este livro fez-me lembrar outro que gosto muito e cuja leitura me marcou profundamente: Manhã Submersa, de Vergílio Ferreira. Ainda hei-de escrever sobre ele aqui. E também me lembrou um pouco o filme francês Les Choristes, que é capaz de ser o meu filme favorito. 
Hans, Sob o Peso das Rodas, assim intitulado na versão que eu li, é uma crítica ao sistema educativo repressivo e rígido (da époda do autor, mas terão as coisas mudado assim tanto?) que valoriza o sucesso académico e descarta o desenvolvimento humano e emocional das crianças cuja criatividade e individualidade acaba por ser emagada sob o peso das rodas de um sistema. 
Nunca tinha lido Hermann Hesse, mas penso ter sido bom começar com uma das suas primeiras obras e uma menos conhecida, e fiquei curiosa para ler Siddhartha, um livro que, confesso, tem escapado à minha TBR. 

30
Out25

A Tia Julia e o Escrevedor, de Mario Vargas Llosa

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Do autor peruano, vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 2010, ainda só tinha lido Travessuras da Menina Má. E fiquei com vontade de ler mais. Num podcast sobre livros, ao mencionarem A Tia Julia e o Escrevedor, foi referido o carácter de autoficção que a obra tem, já que Mario Vargas Llosa foi mesmo casado com uma tia (bem, mais-ou-menos tia). Como boa apreciadora de autoficção, fiquei com muita vontade de ler. 
O livro foi uma boa surpresa, pois combina o género de autoficção, nos capítulos dedicados à Tia Julia, e a ficção, nos capítulos dedicados ao Escrevedor (que não, não é o Vargas Llosa como eu erroneamente pensava, mas sim a personagem fictícia Pedro Camacho, argumentista de radionovelas). Estes capítulos estão intercalados, o que torna a narrativa bastante original. Enquanto vamos assistindo ao desenrolar da história de amor de Marito e Julia, vamos também assistindo à decadência de Pedro Camacho (que a certa altura, começa a misturar as personagens e as histórias todas). 
Mario Vargas Llosa tem a meu ver, um dom de transportar o leitor para o tempo e lugar da narrativa. Senti o ambiente, o entusiamo juvenil, as cores, os sons, e até os cheiros, como se realmente estivesse em Lima dos anos 50. Gostei também muito da história de amor inconvencional que é retratada. Não apenas pela parte de Julia ser tia por afininidade de Mario, mas também por ser mais velha do que ele. Que convenhamos, se até nos dias de hoje é um "drama" para a "sociedade" a mulher ser a mais velha da relação, imaginemos na época. Mas fiquei com uma pulga atrás da orelha. Na vida real, eles têm uma diferença de dez anos (fiz a minha pesquisa), no entanto, no livro, Vargas Llosa escreve Julia como sendo ainda mais velha. Pergunto-me porquê. Para ter mais impacto? Pois é, isto é uma autoficção e não uma biografia, e com certeza, muitos detalhes foram alterados, acrescentados ou retirados pelo autor, que conta a história, claro, pelo seu ponto de vista. E por isso, fiquei agora com muita curiosidade de ler a resposta de Julia Urquidi Illanes (a mulher que inspirou o livro) no seu memoir Lo que Varguitas no dijo. Tenho de o encontrar. 

20
Out25

Triste Tigre, de Neige Sinno

Dias tristes, livros tristes. Terminei há poucos dias esta autobiografia da autora francesa Neige Sinno.

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Publicado em 2023, neste livro Sinno escreve sobre a experiência traumática de ter sido abusada pelo padrasto na infância e pré-adolescência. De uma forma muito honesta, como só poderia ser neste caso, a autora revisita memórias, partilha reflexões e analisa os efeitos do trauma ao longo da sua vida. O livro segue uma cronologia mais ou menos estruturada de acontecimentos e memórias individuais e familiares, desde o seu nascimento, passando pelo momento em que a sua mãe conhece o homem que viria ser seu padrasto, os abusos, a procura pela justiça quando Neige já é adulta e emancipada, até ao presente, em que Neige se confronta com o facto de não se conseguir salvar do trauma. É uma história dura de ler, e não aconselhável a quem seja mais susceptível em relação ao tema, porém é uma leitura importante. Não só pela análise que a autora, conseguindo um certo distanciamento, faz do seu agressor e dos pedófilos que actuam no meio familiar, mas também por ser um livro que dá voz à vítima sem a vitimizar, que a coloca a contar a sua história, a reinvidicar a sua verdade, a expôr a ambiguidade dos seus sentimentos, e a mostrar que é uma pessoa capaz de ser uma adulta completa, apesar da criança traumatizada. Doutorada em literatura americana, e por isso, uma investigadora por natureza, Sinno pesquisa e cita textos jurídicos, estudos sociológicos, obras literárias e relatos de outras vítimas, de forma a compreender o comportamento dos abusadores, a experiência das vítimas, a forma como a pedofilia está tão infiltrada na sociedade, principalmente em contextos familiares, e a passividade em relação a este tipo de violência. A autora refere já no fim do livro, e numa parte que me foi bastante difícil de ler, a forma como as pessoas da sua comunidade continuavam a falar com o seu abusador, depois de ele confessar o feito, justificando-se com os "ele até é boa pessoa" e os "não foi a mim que ele fez isso".
A escrita vai alternado entre o íntimo e o analítico, fazendo assim com que este livro seja um testemunho e um ensaio. Neige Sinno faz questão de evidenciar que não escreveu o livro para superar o trauma, nem se tornou escritora para ser salva pela literatura. Numa das minhas passagens favoritas, contraria a ideia que a arte é criada para se sair do sofrimento. "Porque, quando estamos no inferno, não escrevemos, não contamos, não inventamos, estamos demasiado ocupados a estar no inferno." E eu concordo com este ponto de vista. Só se pode escrever sobre o inferno depois de se sair dele. E foi o que Sinno fez, com um distanciamento e uma capacidade analítica louváveis, já que esta é a sua própria história. 
Quero terminar a minha experiência a ler esta obra, acrescentando uma passagem que gostei muito, em que a autora faz um pequeno silverlining, recordando momentos de normalidade e brincadeira com os irmãos, num texto que eu achei muito bonito e sensorial, ela chega à conclusão de que a sua infância também teve um lado feliz, um lado de criança: "Ninguém nos poderá tirar a chuva de verão."

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